Thursday, October 8, 2020

BRUMAS DO KAMOGAWA


1
KISERU NO YUME - SONHO DE CACHIMBO 



Yamada Hiroshi san satisfez-me uma das minhas velhas aspirações, a de ter uma gravura de Kitagawa Utamaro, um do expoentes maiores do Ukyio-e. A gravura era de uma mulher jovem, o kimono verde languidamente solto, segurando um espelho que seria de laca preta, iniciando os preparos do dia.

Comprei-lhe a estampa, impressa em washi, papel japonês, e levei-a cuidadosamente comigo a caminho do Ryokan (hospedaria tradicional) onde me tinha alojado, em Kyoto.

No regresso, caminhando sem pressa, e procurando registar tudo o que via, deparou-se-me uma pequena casa tradicional de madeira escura, igual a muitas outras, que vendia antiguidades.

A casa era estreita e comprida. Ao contrário de outras do género, esta possuía a austeridade de ter poucas coisas. Ao fundo, uma Ô-Yoroi (grande armadura) contemplava sentada, um vale invisível, distante mais no tempo que na geografia. Talvez quem envergara aquela espantosa armadura tivesse estado em Sekigahara (grande batalha travada em 1600), pensei.

O ambiente era sombrio, o mês de Março estava fresco mas nesta velha casa respirava-se uma grande serenidade. A luz era apenas a suficiente para se vislumbrarem os objectos, presenças silenciosas de tempos idos. À minha direita, sobre um armário, repousava uma caixa de laca com gavetas, encimada por uma calote de metal perfurado, a deixar adivinhar que serviria para nela se queimar carvão. A presença próxima de um tabuleiro repleto de cachimbos longilíneos convenceu-me de que a caixa tinha sido de um abastado fumador.

Como por simpática necessidade suscitada pelos outros cachimbos, acendi o meu quando, por detrás de mim, uma voz feminina me dizia gentilmente:
– ohaiogosaimasu. (saudação)

Virei-me, e uma senhora de idade, envergando um kimono castanho e preto muito discreto, o obi totalmente negro, tudo em perfeita consonância com as tonalidades do ambiente, sorria-me com um ar de bondade digna, algo que sendo acolhedor não era jovial. Na sua voz sussurante disse-me algo que não entendi no meu superficial conhecimento do japonês. É curioso como as japonesas dizem, ao iniciar uma frase, um ah, como quem se lembra de algo, uma como que tomada de fôlego, de que resulta, no subsequente discurso, uma espécie que acorde inicial, impregnado de uma harmoniosa forma de abordar um assunto novo. Dir-se-ia que essa aspiração significa o primeiro passo de um bailado verbal, com compassos suaves onde se percebe a delicadeza posta nas palavras.

 Sumimasen, (desculpe) respondi-lhe como pude – watashi nihon go... ié, (eu, de língua japonesa...não) devolvendo à senhora o sorriso. Ela foi dizendo mais qualquer coisa de onde discerni a palavra tabacô enquanto se dirigia para o tabuleiro dos cachimbos, levando a palma da mão direita em direcção ao nariz, como que a aspirar o ar. Percebi que gostara do cheiro do tabaco.
– Ah
, imitei eu, gomen nasai (outra forma de dizer desculpe por incomodar).

– Ié, ié, respondeu-me sorrindo. E percebi que poderia continuar a fumar.

Cuidadosamente a mão direita foi percorrendo os cachimbos até pegar num cuja madeira brilhava, escurecida pelo uso. A fornalha tinha um pequeno ornato gravado e o metal estava despolido. Fez menção de mo entregar com as duas mãos mas vendo que tinha as minhas ocupadas uma com um saco onde trazia a gravura e a outra com o cachimbo, indicou-me uma mesa baixa para que os pousasse. Desajeitadamente coloquei o saco na mesa, mas tão incompletamente que a gravura resvalou para o chão limpo.

– Ah, fez a senhora quando viu a estampa. Ambos nos baixámos para a apanhar, ela com a mão direita tapando o espanto que a boca revelaria. E ficou a contemplar longa e enigmaticamente aquela estampa, e eu a olhar a senhora do kimono escuro, perdida naquela inexplicavel contemplação.

Caiu subitamente em si, novamente com um ah quase surdo, quase apenas um baque. Virou-se para mim e com uma profunda vénia disse-me: 
– gomen...
 e, apontando para a estampa com os olhos, segurou-a cuidadosamente, arrumou-a no saco, levantando-se com um sorriso, os olhos baixos.

Pegando novamente no cachimbo que escolhera, entregou-mo com as duas mãos, dizendo Nihon no yume kiseru (cachimbo japonês de sonhos). Peguei no cachimbo e depois de o admirar, devolvi-lho. Ela disse que não, e com a palma da mão virada para cima, apontada para mim, repetiu o gesto para que o compreendesse. Entendi que era uma oferta. Ora olhava para o meu cachimbo ora apontava para o cachimbo que me entregara, arrastando meigamente as frases finais, imperceptíveis para mim. Senti-lhe porém a determinação e limitei-me a retribuír a vénia com um domo arigato gosaimashita (obrigado formal). Respondeu-me que não, que não era preciso agradecer. Depois dirigiu-se à caixa de laca, abrindo uma gaveta de onde retirou um estojo em esteira antiga e uma bolsa em brocado. Por momentos julguei ver encostado à caixa, um espelho redondo com uma pega, todo em laca preta. Tabacô, disse-me, mostrando a bolsa. Nihon-no tabacô (tabaco japonês).

Aos meus agradecimentos respondeu ié, ié, entremeado de um sorriso bondoso.

Embrulhou-me as ofertas que estranhamente me fizera, com grande perícia, num lenço de uma côr verde jade com padrão de corações e pintas brancas.


2

YUME - SONHO

Tomei um reconfortante banho quente, mergulhado na tina, enquanto meditava sobre o encontro com a velha senhora na casa de antiguidades, observando o vapor da água quente, como se nessa condensação estivesse a resposta.

Vesti o yukata (espécie de kimono mais simples) que trouxera comigo, atei o hakata obi (cinto) com o nó de cauda de peixe que aprendera a fazer há muito, pus o haori (sobre-kimono curto) azul escuro e aguardei que me chamassem para o jantar no quarto forrado a tatami, onde uma pequena mesa baixa constituía, juntamente com um tabuleiro de pé e uma televisão, a mobília visível do quarto, uma divisão bastante grande, de oito tatami.

Decidira que depois do jantar voltaria a examinar a gravura e as prendas que a senhora da casa de antiguidades me havia estranhamente dado.

Jantei a pensar nas razões para aquele comportamento. Ter um cachimbo não era razão suficiente para receber outro, sobretudo um gaijin (estrangeiro) que ela nunca vira.

Regressado ao quarto, já tinham colocado no chão um confortável e lindíssimo futton, forrado com uma protecção de linho alvo a anunciar uma noite confortável. Os embrulhos lá estavam sobre a mesa, agora arredada para o lado.

Sentei-me no chão, retirei do saco a gravura de Utamaro e contemplei-a de novo. Sempre achara que o ponto mais erótico que uma mulher vestindo kimono apresentava era o anúncio da nuca e do pescoço. Mas aqui a mulher estaria a mirar-se num espelho ao acordar, examinando o seu rosto, o cabelo ainda protegido parcialmente por um lenço, o kimono deixando ver um breve decote solto pelo sono.

Olhei para o embrulho de tecido que a antiquária fizera. Olhei de novo a gravura. Era certamente uma coincidência, talvez demasiada coincidência para o ser. O tecido do embrulho era muito macio, ligeiramente texturado. Ao desatar o embrulho pude ver que o lenço fora cuidadosamente debruado à mão. Trouxe-o para junto da gravura. Não havia dúvida, o tecido era exactamente igual ao do kimono da estampa de Utamaro.

Apeteceu-me subitamente fumar. Olhei para o estojo de esteira antiga e decidi que iria provar o tabaco que a senhora me oferecera no respectivo cachimbo. Abrir o saco do tabaco que não tinha cheiro e era mais amarelo que o meu e enchê-lo devagar, serviu para me distraír, adiando todo o espanto de que me encontrava possuído.

Peguei num cinzeiro, pu-lo ao pé do futton e decidi deitar-me. Fumaria deitado, consumindo rapidamente aquela pequena quantidade de tabaco japonês que cabia na fornalha.

O tabaco soube-me estranhamente ao sabor que uma flôr pode ter. Aspirei o fumo para melhor o sentir. Mas o mais surpreendente era que este parecia desproporcionado em relação ao que eu exalara, originando uma espécie de nuvem que me deixou confuso e perplexo. A nuvem crescia por si, disseminando-se como névoa, a luz do candeeiro iluminando essa súbita cortina imaterial que ia lentamente ocupando o quarto todo. Em pouco tempo tudo mudara. Apenas se via uma névoa iluminada e o tatami no chão. E eu, estranho em terra estranha, a pensar se já teria adormecido e sonhava.

Mas pelas minhas narinas perpassou um suave cheiro a óleo de flores, semelhante ao choji (cravo-da-índia), enquanto o silêncio nocturno do quarto era irrompido por um som de rua acordando, povoando-se, gente a falar, respirações ofegantes de homens que pareciam carregar algo pesado. Tudo foi acontecendo rapidamente, como o tempo que leva entre o fim da madrugada e a alvorada.

Ali no quarto, mesmo além dos meus pés, ouvi um suave bocejo, sons femininos de uma mulher a acordar. Adivinhava o espaço distendido bastante para além do que sabia serem os limites do quarto.

Pressenti que tudo aquilo que se estava a passar, ainda não sabia o que era, se sonho se alucinação, ou se efeito de tabaco estranho, começava a ter um sentido, uma lógica que obedecia a um ordem talvez onírica, portanto, imprevisível.

A luz do dia inundou a neblina e ainda, eu sabia, a noite mal começara. Com algum esforço curioso pude descortinar um vulto soerguendo-se do chão, a luz iluminando a silhueta, dando-lhe enfim côr. E a côr se fez revelação. Como que a névoa cedendo à figura, uma jovem mulher japonesa acabara de se erguer lânguidamente, vestindo sobre a pele um kimono macio, exactamente igual ao da gravura, o decote mais aberto do que o normal, uma pele mais branca que o habitual. Num gesto elegante, passou a mão pela face direita e afagou a pele até ao pescoço, como que a avaliar a sua suavidade. Tinha o cabelo ligeiramente desalinhado e um lenço sobre a testa para proteger o penteado. Pegou num espelho de laca preta, que o seu corpo tinha ocultado, e olhou-se prescrutando o rosto, o fácies, as sobrancelhas erguidas como que ajudando a ver melhor. Lentamente, foi colocando alguns alfinetes no cabelo para o prender mais seguramente. Depois sorriu-se ao espelho. Pude então ver-lhe os dentes negros, tingidos. Curiosa e estranha esta deliberada remoção da presença dos dentes. Seria que o sorriso constituía uma interdição? Percebi, porque mo ensinaram, que era uma mulher casada do período Edo (1603 a 1868). Mas que fazia eu num tempo que já passara? As coordenadas tinham-se dilatado? O sentido do Tempo tinha-se modificado? O que era isto senão um sonho?

– Ah, mas quem é você? O que faz no meu quarto? Nova estupefacção. Ela falava a minha língua, trazendo-me repentinamente de regresso das minhas dúvidas e cogitações.

Era preciso responder-lhe:
– No seu quarto? Mas eu estou no meu quarto, num Ryokan de Kyoto
. A sua mão direita tapava familiarmente a boca. A outra mão fechava instintivamente o kimono solto. Olhou-me fixamente, os olhos procurando prescrutar-me a mente, depois pestanejou e pareceu acalmar-se.
– Mas você é estrangeiro. Que faz aqui depois da interdição ? Quer desgraçar-me? Ah, mas como entrou? E como fala japonês? Sabe que sou uma mulher casada?


Todas aquelas perguntas eram feitas num tom ligeiramente mais agudo, mas numa voz semi-sussurrada, suave, mesmo doce. Ouvi-me a ouvi-la e a deliciar-me com a maneira como falava. Neste ambiente insólito, percebia tudo o que ela me dizia. Para ela eu falava japonês, para mim o que dela ouvia não era definitivamente japonês. Deixei instintivamente que as perguntas se sucedessem, ritmadas, deixando nascer uma pausa antes de responder.

 Tudo isto não tem uma explicação lógica. Ou por outra, eu não a encontroAté há pouco tempo estava eu tranquilamente no meu quarto e quando acendi este cachimbo tudo começou a mudar… e mostrei-lhe o cachimbo já apagado, ainda que a neblina se mantivesse. Como é que explica que eu a entenda se não falo japonês fluente? E como é que me entende a mim? Isto parece um filme.

A jovem mulher olhou para mim com um ar que eu não soube interpretar. Não havia no rosto dela nenhuma emoção. Apenas os olhos inquiriam de uma forma discreta, ora na minha direcção ora para o cachimbo que eu lhe mostrava, ora ainda para dentro de si própria. Baixou os olhos, respirou fundo, olhou a mão direita pousada sobre o regaço. Hesitou antes de falar :
– O que é um filme?


Custa-nos sempre adaptarmo-nos a novas circunstâncias onde o nosso vocabulário mental se tem de reconfigurar. Soube-o ali mesmo, com aquela simples pergunta vinda do século XVIII:
Olhe, é como termos um sonho, só que vamos a uma sala especial para vermos esse sonho
 retorqui, agora já plenamente consciente de que, por qualquer razão, a língua não era um obstáculo.

– Ah, fez ela, e eu gostava da maneira inocente como o fazia, é como o Kabuki?

Estabelecera-se entre nós uma maior tranquilidade e mútua curiosidade. A disputa dos nossos territórios – o meu quarto no Ryokan e o quarto dela fundidos num mesmo espaço pela eteriedade de uma persistente neblina – esmorecera, desaparecera mesmo, para dar lugar àquela forma de aprendizagem mútua, ainda não totalmente despojada de algum constrangimento.

– Acho que sim. É isso mesmo, é como o Kabuki, mas não existe aqui neste tempo, disse, levantando o olhar para ela que, mais segura, levantara ambas as mãos para ajeitar os alfinetes do cabelo, peças de madeira de rara beleza.

– Não existe neste tempo? Olhou-me espantada. Espere, você é muito estranho. Não é japonês mas fala-me em japonês, tem um penteado estranho que não é o dos nossos homens, tem a pele escura, mas as suas mãos não têm calos. Tem uma altura maior que a normal. Fez uma pausa prolongada, talvez tensa.
– Você quem é ? O que é esta neblina que não me deixa ver os contornos das coisas? Veio da floresta?

Sorri para dentro. Eu sabia que ela falava nos espíritos que habitam as florestas. Enquanto o sonho durasse, se sonho era, eu tinha de perceber que estava na Kyoto do séc. XVIII. Tive de me concentrar:
– Não, sou um viajante a quem uma velha senhora deu este cachimbo e este tabaco embrulhado num tecido igual ao kimono que veste
.

Deliberadamente omiti a alusão à gravura, estendendo-lhe o lenço. Inclinámo-nos para permitir que aquele testemunho passasse de mãos. Ela pegou no lenço com um gesto delicado, o decote abrindo-se pelo peso do próprio tecido, porventura esquecida de como estava. Endireitou-se, pegou no lenço com as duas mãos, dobrou-o cuidadosamente em três partes, analisou o debruado, levantou os olhos para mim com ar assustado.
– Mas como pôde uma velha senhora ter-lhe dado este lenço se eu o fiz do resto deste kimono?
 Olhou em seu redor angustiada, o lenço de encontro ao peito.
– Foi você que mo tirou enquanto dormia, certamente
. A voz agora estava insegura, trémula.

– Olhei-a com ar sereno. O que eu lhe disse foi a verdadeUma velha senhora de uma loja de antiguidades embrulhou este cachimbo e este tabaco no lenço.

Ela tinha uma maneira doce de olhar, mesmo quando incrédula. Transpirava feminilidade e olhou-me mais uma vez, prescrutando-me, os olhos por vezes semi-cerrando-se. As mãos estavam agora pousadas no regaço, alisando continuamente o lenço.

– En murmurou. En, destino, ordem inatingível. Levantou-se graciosamente. Não era alta, mas era longilínea, delgada, frágil. A bruma desfazia-se à medida que ela se movia. Puxou uma mesa baixa para perto da janela, pegou numa caixa- -estojo em madeira escura de onde retirou um pincel, vi a pedra de fazer tinta. Depois desenrolou uma folha de papel e escreveu, de costas para mim. Admirei-lhe a nuca suave e aquele cabelo sedoso e negro, abundante sem dúvida, talvez dando-lhe pela cintura, se não estivesse penteado. O obi (cinto japonês feito de uma longa faixa) que trazia era simples, de um branco jade, quase solto. Voltei a ouvir o ruído da rua. Os meus sentidos tinham-se deslocado, mas não descurei a jovem.

Quando se virou para mim, a folha de papel tinha ficado dobrada inúmeras vezes, como se fosse uma régua. Dobrou-a ao meio à minha frente e fez um nó idêntico aos votos e promessas que tinha visto pendurados nas árvores do templo de Kyoto.

– Por favor, disse-me, estendendo o papel e o lenço cuja pertença ela reivindicara  tomarei providências para que visite esta noite Sakura dayuLeve tudo o que a velha senhora lhe deuÉ uma visita que a mim me está interdita. Providenciarei para que seja conduzido à sua presença. Dissera aquilo com uma resolução tal que recebi a carta e o lenço sem questionar.

Levantou-se, curvou-se na minha direcção, olhou-me uma vez mais e murmurou Adeus e afastou-se rapidamente. A bruma fechou-se, engolindo-a.

–Conhece Utamaro, Kitagawa Utamaro? Quase gritei. Os passos quase silenciosos pararam. Ouvi-lhe apenas a voz.  

–Meu marido vive em Edo.(Tóquio)
A névoa tudo cobriu de novo, rodeando-me inexoravelmente, e os meus sentidos todos cederam a um sono profundo.


3

PREPAROS PARA UM ENCONTRO

Acordei de uma forma única: Uma mão passando os dedos pelos meus cabelos, penteando-os repetidamente para trás, ora massajando ora simplesmente acariciando.

Primeiro tem-se a sensação de que o espírito e a alma se renovam. Um bem estar apoderava-se de mim ainda num estado de dormência. Mas a repetição dos movimentos tácteis, percebi depois, fazem-nos despertar de uma forma única, como recém-nascidos olhando o mundo.

Abri os olhos lentamente, já sintonizado para aquela insólita forma de despertar. Olhei para a minha direita virando a cabeça, e vi a jovem acabar de retirar repentinamente a mão, os olhos fitando o colo. Estava agora rigorosamente arranjada mas, curiosamente, o kimono era o mesmo. E eu estava desperto, tão acordado que tinha reparado que não havia neblina

O quarto não era o meu, mas não era muito diferente. Apenas as madeiras eram mais escuras. Uma lanterna sabiamente colocada atrás de mim iluminava o ambiente sem ferir os olhos. A jovem olhava-me de forma diferente. Não vislumbrava nela nenhum receio ou distância maior que aquela que era conveniente. E mesmo assim, eu tinha dúvidas. Ela acordara- -me duma maneira que eu poderia interpretar de forma dúbia. Mas, mais que isso, ela voltara, apesar da sua despedida.

– Esteve a dormir o dia todo e a hora de se avistar com Sakura san aproxima-se. É preciso que jante, não comeu nada. Espero que goste do jantar disse, virando-se e trazendo-me um tabuleiro de pé alto que me permitia comer sentado no chão, e que já deveria estar preparado quando ela me acordou.

Tudo estava disposto numa rigorosa ordem. Comi o peixe, o arroz e bebi um delicioso caldo. Reparei que um pequeno caule ainda verde, com botões de amendoeira cor de rosa ornava a borda de um dos pratos. Durante todo o tempo em que estive a comer, ela permaneceu imóvel a observar-me sem trocarmos palavra alguma. Bebi o chá e, quando pousei a tigela no tabuleiro, dando por terminada a refeição, senti por detrás de mim um movimento de tecido roçando sobre um corpo e uma outra mulher, silenciosamente, ajoelhou-se, saudou-me curvando-se, pegou na bandeja e, erguendo-     -se, retirou-se do meu campo de visão. Percebi que saíra quando ouvi a porta deslizar para se abrir e fechar suavemente.

Ficámos em silêncio, olhando por momentos um para o outro. Depois, da prega do seu kimono ela tirou a minha bolsa de cabedal e o meu cachimbo. Não estranhou o mecanismo que fazia abrir a bolsa. Devia já tê-la examinado, estava certo disso. Nada disse enquanto eu enchia o cachimbo com gestos tão diferentes dos que ela deveria estar habituada a ver. Extraí da bolsa o isqueiro e acendi o cachimbo. Pude perceber uma pequena centelha de surpresa. Quando expeli o fumo, ela olhou-o a subir e, segurando a manga do kimono, trouxe a palma da mão para diante do nariz e aspirou fechando os olhos. – Este tabaco tem um aroma agradável, murmurou.

Algo, como que prenúncio do fio de uma meada, começou a formar-se na minha mente.

Olhou para trás de si nesse tempo que se distendia, como se procurassemos prolongar a presença um do outro. Segui-lhe o olhar.
– Foi difícil encontrar um traje para o seu tamanho
. Reconheci um hakama (calças largas tradicionais) azul cinza com um padrão de pintinhas, um kimono liso azul escuro e um haori da mesma cor com cordões brancos. Ao lado estava um capacete de oficial com um mon (símbolo de clã nipónico) dourado na frente.

– Mesmo de noite é preciso ir bem disfarçado. É difícil passar despercebido, murmurou.

Percebi que a altura do encontro se aproximava. Ela bateu as palmas e um homem com o penteado tradicional, a cabeça rapada por cima, o cabelo oleado e cuidadosamente penteado e atado numa espécie de trança curta que assentava sobre a parte superior do crânio, entrou de joelhos. Reparei que a sua expressão era impenetrável e a idade indefinida.

– Muraoka Tsunetsugu ajudá-lo-á a vestir-se convenientemente. E saiu, deixando-me com aquele que designara para me ajudar. Quando ambos nos levantamos pude perceber que no século XVIII os homens eram sensivelmente mais baixos do que os do tempo de onde eu provinha. Rapidamente desatei o obi que Tsunetsugu pegou e dobrou cuidadosamente. Recebeu depois o yukata.

Reparei que alguém me tinha vestido uma roupa interior tradicional, uma faixa branca que se enrolava até às minhas costelas, servindo simultaneamente de calções interiores. Tsunetsugu pegou em cada peça de roupa e ajudou-me a envergá-la, numa sequência lógica. Primeiro um sub-kimono de algodão branco. Depois o kimono azul escuro, a que se seguiu um hakata obi que ajudei a ajustar. Depois foi a vez do hakama, cuja atadura complicada ele fez rapidamente, apertando bem e esmerando-se no nó cruciforme. Calcei as tabi, meias japonesas em algodão que separam o dedo grande dos restantes. As minhas eram azuis escuras e, para cúmulo, serviam-me, o que não deixou de me intrigar pela eficiência da jovem. Seguidamente entregou-me um leque fechado com ar expectante. Tomei-o e pu-lo à cinta, do lado direito. Sabia que o leque era um elemento indispensável no vestuário tradicional. Tsunetsugu mantinha-se numa posição semi-ajoelhada que lhe permitia baixar-se e levantar-se harmoniosamente. Olhei para mim próprio, examinei o nó e o leque. Entregou-me de seguida o haori e ajustando-o à frente, atou cuidadosamente os cordões brancos. Olhei o nó e pensei como eram belos os nós chineses e japoneses. O haori ostentava à frente um mon de cada lado do peito. Quando levantei os olhos Tsunetsugu tinha nas mãos uma wakizashi cuja bainha estava lacada de azul escuro. Olhava intensamente para mim, a espada curta na horizontal, o lado convexo correspondente ao fio da lâmina virado para ele, o cabo do lado da sua mão direita. Sabia que me testava. Estendi a mão direita e agarrei na bainha, muito próximo do cabo, e já com o fio virado para cima, usei a mão esquerda para ajudar a inserir a bainha no hakata obi. A wakizashi deslizou suavemente, ficando num ângulo de cerca de 30 graus em relação ao meu plano frontal. Realizei estes movimentos sem tirar os olhos dele. De pé, de onde estava, sorri vagamente para dentro.

Tsunetsugu baixou os olhos, levantou-se com a katana na mão direita, estendendo-ma com uma vénia curta e brusca. – Entre nós não basta um homem estar correctamente vestido. Precisa de se vestir no seu interior e saber enfrentar a morte de frente para ela. Era a primeira vez que falava.

Não lhe respondi. Peguei na katana com a mão direita, trouxe-a para junto do meu corpo, o braço estendido, o fio cortante virado para trás. O meu corpo e o meu espírito, à medida que iam sendo investidos destas peças de vestuário, iam-se transformando. Os músculos relaxaram-se, mas estavam atentos. A mente estava clara, vazia, desperta, pronta a receber. Não precisava de me ver, sentia-me. Havia como que uma transformação que me permitia apreender o que o homem que fora encarregado de vestir um estrangeiro dissera. Não era uma crítica, não era uma repreensão sequer. Sentia-o antes como um apelo ao meu comportamento, mascarado na forma de uma afirmação.

Muraoka Tsunetsugu fitou-me surpreendido.
– Na tua terra, és da casta samurai?
 A evocação da minha terra derrubou a vontade de ostentação que eu quisera exibir face a alguma etiqueta que eu melhor conhecia.

– Não, respondi – não sou. Não acredito em castas.

A porta abriu-se e a jovem entrou, o olhar baixo. Devia ter estado a ouvir a conversa, sentada do outro lado da porta. Tsunetsugu pegou no capacete lacado de preto e, dirigindo-se à jovem, disse:  estamos prontos Osode san.

Ouvi o seu nome pela primeira vez.
– Osode san
 repeti eu.
– Sim
, disse, e o rosto enrubesceu, os olhos baixaram pudicamente. Via agora que era bastante mais alto que ela. Tinha-a visto sempre deitado ou sentado, não me tinha apercebido da sua fragilidade. Vamos, disse, abrindo-me a porta e esperando do lado de fora.

– Tsunetsugu acompanhá-lo-á. Está uma liteira à espera em baixo. É conveniente que vá o mais discreto possível. Descíamos as escadas para o andar térreo. Fez questão de me levar a katana que segurou femininamente com as duas mãos.

Um estrado em madeira escura terminava a meio da área inferior, onde o chão de terra começava. Ali mesmo estava uma liteira de aspecto leve, com as cortinas corridas. Os carregadores levantaram-se e olharam-me estupefactos. Havia quatro homens, dois dos quais traziam lanternas.

Osode devolveu-me a espada, pegou no lenço verde, novamente tornado cuidado embrulho, e colocou-o entre o meu kimono, olhando-me com um ar ansioso, a mão esquecida sobre o volume do lenço. Pus o capacete que Tsunetsugu atou.

Os carregadores tinham erguido a liteira, e um dos porta-lanternas segurava a cortina que me ocultaria.

– Não sei quando é que isto tudo vai acabar. Osode olhou-me com ar controladamente ansioso e respondeu-me com uma pergunta.
– Onde conseguiu a gravura?


4

REVELAÇÃO

A liteira serpenteava por ruas nocturnas que eu naturalmente desconhecia mesmo que as cortinas não estivessem cerradas. O movimento oscilante da liteira tornava-se num embalo, como regresso à infância. Só que agora as questões que punha não se limitavam ao porquê pueril, e não me tinha senão a mim, não para dar respostas, mas antes para as encontrar. Não fizera perguntas, apenas quisera uma gravura de Utamaro, nada mais.

A cada passo que os carregadores davam, mais se acentuava a expectativa que sentia. Sakura dayu, quem seria para ter um nome destes? Porque é que Osode me fizera vestir desta maneira se o meu rosto não deixaria dúvidas a ninguém? As perguntas sucediam-se. Olhei para a grossa corda de seda que pendia do tecto da liteira, onde eu me segurava com a mão direita e procurei afastar as perguntas que me punha. Era tudo, ironicamente, uma questão de tempo. Sorri perante a óbvia conclusão a que chegara. O Tempo, essa nossa invenção de contar as horas como se fosse aquele a variável e não nós, que por ele vamos deslizando.

Os sons da rua mudaram, diluindo-se, bem como a luz nocturna que entrava. A liteira fez uma curva à esquerda e foi abrandando. Os pés dos carregadores mudaram o embalo ao pisarem cascalho e, a passo, a liteira parou. Ouvi vozes cumprimentando-se enquanto me poisavam no chão. Deixei que as formalidades terminassem e rapidamente decidi que me iria deixar conduzir pelos acontecimentos. Reagiria em função deles.

A cortina foi levantada e a luz de um dos lampiões bateu-me em cheio na cara, ferindo-me os olhos já habituados àquela semi-obscuridade em que viera. Senti as pernas dormentes, mas ignorei-as. Tsunetsugu estava dobrado respeitosamente a uns passos de mim.

Senti que o chão era de gravilha, mas não o olhei. Intuí que não deveria olhar para o chão. Estávamos num jardim, mesmo depois do portal que interrompia o muro da casa. Havia uma ponte vermelha, onde em cada extremidade uma lanterna em forma de telhado, iluminava o caminho.
– Seja bemvindo excelência
, ouvi dizer e percebi, apesar da escuridão, a figura feminina curvada, vestida de tons que iam do rosa, ao vermelho e ao roxo. Quando se ergueu observei que tinha o rosto branco e um penteado elaboradíssimo onde se adivinhavam inúmeros ornamentos.
– Espero que possa encontrar na nossa casa repouso para as suas inúmeras tarefas
. Baixei a cabeça, e ela, indicando a ponte, iniciou o cortejo. Pude ver que o seu obi estava atado de tal modo que a parte final da faixa pendia, atrás, até à dobra dos seus joelhos.
A ponte atravessava um lago, e o jardim tinha muito de influência chinesa, decididamente Tang. As luzes da casa estavam todas acesas.

Descalcei as sandálias e subimos para o corredor exterior, que sem dúvida circundaria todo o edifício de dois pisos. Senti Tsunetsugu atrás de mim. Avançou com a mão direita estendida, como que a pedir passagem, embora o espaço fosse amplo. Com passos rápidos alcançou a mulher e sussurrou-lhe algo.
– Ah, so deska! Wakarimasu. Hai!
 (Ah, pois. Compreendi. Sim) respondeu ela num tom que me pareceu estudado.

Continuámos a andar como se nada tivesse acontecido. Tsunetsugu aguardou que eu passasse, fez-me nova vénia, pondo-se de seguida dois passos atrás de mim. Caminhámos contornando o conjunto de edifícios que se encaixavam uns nos outros.

A jovem, que andava alguns passos à nossa frente, parou. Ajoelhou-se, fez deslizar uma porta até metade com uma das mãos, e finalizou a abertura da porta com a outra mão, tudo numa economia de gestos que fui fixando. Tudo era estudado até ao mais ínfimo pormenor. Nada cortava a harmonia.

Do lado de lá da porta de correr, outra jovem igualmente de rosto pintado de branco, que eu já adivinhara ser uma gueixa, saudou-me harmoniosamente, curvando-se.

Tsunetsugu abeirou-se de mim num instante e, com as mãos estendidas, murmurou:
– a katana
.
Fiz uma revisão instantânea. Devia ter-lhe estendido a katana que levava na mão direita. Penitenciando-me por essa desatenção mantive a atitude altiva. Tsunetsugu ficaria portanto cá fora à minha espera. A jovem, levantando-se graciosamente, conduziu-me para o interior. À medida que observava o percurso onde reinava um estranho silêncio, inquiria-me o que teria levado Osode a mandar-me para um lugar destes? Afinal ia-me divertir? Mas pensaria ela que eu me divertia assim? Novamente tentei afastar o chorrilho de perguntas que se avizinhava e concentrei-me no ambiente.

Enquanto subia as escadas para o primeiro andar, senti um aroma suave, novamente de flores, apesar da fileira de velas que iluminavam os corredores. Seriam as próprias velas? Segui mecanicamente os passos da jovem ao longo do corredor. Ela abrandou, olhou para mim por cima do ombro direito, e parou. Ajoelhou-se graciosamente, repetiu os mesmos gestos de fazer deslizar a porta e, de novo, me saudou curvando-se, murmurando algo. Hesitei um segundo, lembrei-me do capacete que trazia. Desatei o nó que o segurava ao queixo e passei para o outro lado da porta que imediatamente se fechou por detrás de mim.

À minha frente, a cerca de 4 metros, estava uma parede. No chão, um pequeno candeeiro quadrado de papel e madeira ocultavam a vela que dentro ardia e iluminava um biombo pintado a dourado, aves voando em formação. À minha direita, fechada, nova porta, cujo papel deixava antever uma luz suave, vagamente avermelhada. Senti a tensão do momento, sobretudo agora que nem o capacete ocultava o meu cabelo, sem dúvida estranho para aquela terra. Respirei fundo quando estendi a mão para afastar a porta que me separava de Sakura dayu. Abri-a rápida mas suavemente e entrei. Julgo que entrei.

Reuni todas as minhas forças para me manter impávido, ainda que o que se me patenteava me invadisse a mente como alterosas vagas de insólito.



Sakura Dayu


Era-me dado ter uma magnificente visão do predomínio do vermelho, como o rubor anunciando o despertar dos sentidos. O amplo compartimento estava iluminado por uma única luz, estrategicamente colocada por detrás e à direita da estática e fulgurante figura que dominava toda a cena. Sakura dayu estava vestida de todas as cores de luxo, brocado e seda, vermelho e dourado, padrões hexagonais fundindo-se com cenas descritivas, uma flor que lhe dava o nome por cima do peito esquerdo, onde o pouco que se via do kimono era cor de rosa. O cabelo, soberbamente penteado, era uma coroa de decorações de alfinetes e pentes, talvez de madrepérola ou tartaruga. O rosto era espantoso. A tinta branca que cobria totalmente a pele criava uma máscara que era em simultâneo uma distância e uma proximidade. As pálpebras estavam levemente coradas a rosa. As sobrancelhas formavam suaves arcos e os cantos exteriores dos olhos estavam pintados a vermelho, tal como a boca, um desenho de um vermelho igual, intenso, que combinava esplendidamente com o liso kimono rubro interior que assimetricamente saía de entre outras camadas de vestuário sabiamente combinadas. Trazia uma capa segura pelos braços, espraiando-se pelo chão, coberto por um tapete de feltro igualmente vermelho, sobre o tatami. O corpo dela perdia-se nessa esplêndida capa que na frente ostentava, sobre fundo vermelho, o desenho de uma fénix.

Fixava-me com o anúncio de um sorriso, a comissura esquerda da boca mais subida que a direita. Baixou lentamente a cabeça, numa saudação silenciosa. À sua frente, no prolongamento da mão que segurava um cachimbo, lacado também de vermelho, havia um tabacô bon (tabuleiro para cachimbo e tabaco). Foi com a mão direita que iniciou a conversa, num breve gesto. Por favor seja benvindo. Sente-se confortavelmente. Falava pausada e seguramente, a voz mais grossa do que as que ouvira anteriormente, mais profunda.

Mantive-me em silêncio enquanto me sentava, puxando para mim uma almofada vermelha das muitas que estavam harmoniosamente espalhadas. Ela sentiu a minha perturbação e delicadamente iniciou a conversa.
– Sakê? Aquece o corpo e sossega o espírito
. Sorri contrafeito. – Obrigado, por agora não.

Sakura dayu sorriu cortêsmente, olhou para a mão que segurava o cachimbo.
– Sei que já fumou dos nossos cachimbos
Gostou? Compreendi quão diferente era a função e o ritual de uma mulher como ela, das suas congéneres ocidentais. Perguntava-me mesmo se haveria correspondência.

– Suspeito que foi essa experiência que hoje me conduziu aqui, recuperava lentamente o domínio dos meus pensamentos.  Não sabia o que iria encontrar… arrependi-me imediatamente.

– O que faz a vida interessante é mais a busca que o encontro, o percurso em direcção ao aperfeiçoamento do que a perfeição, respondeu sem pressa, sorrindo. Sentia nela, por vezes, como que a emergência da sua pele real em relação à máscara de pintura de que se revestia. Mas ainda era cedo para tirar conclusões. Estudavamo-nos mutuamente, mas eu intuía que ela era profunda conhecedora dos homens.

– Perdoe-me a pergunta, agora o tom era muito suave. Deixou que passassem alguns momentos, mexendo com a fornalha do cachimbo nas cinzas da tigela de porcelana.
– Será que eu o intimido?
 A pausa estudada, não tinha sido suficiente para dissolver a perfurante pergunta. Seria uma provocação destinada a encaminhar a conversa para outros lados? Mas ela tinha rompido a etiqueta. Decidi que iria ser eu próprio e confrontar-me com as diferenças do tempo.

– Não sei se me intimidaAdmito que estou mais curioso e intrigado que intimidado. E apeteceu-me fumar para me segurar a algo.

– Gostaria de fumar? perguntou-me imperturbável, lendo-me os pensamentos. Garanto-lhe que o tabaco não é o mesmo… Percebi que estava inteiramente informada.

O que sabe disso tudo? Perguntei, recusando o cachimbo com um gesto. Sakura dayu sorriu vagamente, vagueou os olhos que pareciam raiados de sangue pela pintura. Depois olhou-me:
– uma mulher como eu, mesmo tendo a categoria de Oiran (grande cortesã) não deixa de ser procurada pelos homens pelas mesmas razões que justificam estas casas
Ouvimos-lhes insondáveis segredos, somos como que o lenço dos seus prantos reprimidos, o poço que querem que seja regaço. Primeiro damo-lhes a importância que eles precisam de sentir que têm, por muito ilusória que seja, depois, quebrado o gelo e desfeitas as defesas, somos confidentes, recipendiárias de tudo. Compreenderá que estamos treinadas para ouvir, para receber e dar. Por muito que a dádiva seja supérflua, é importante para os que nos procuram sentirem que dando, recebem.

A conversa tomava um rumo estimulante. Sempre gostei de mulheres inteligentes, e Sakura dayu, apesar de jovem, conhecia bem os homens. Não era um prelúdio para coisa nenhuma, começava a ser uma conversa onde ela transgredia deliberadamente os limites do comportamento que era suposto ter.

– Mas, comecei, eu não sabia sequer que existia assimDepois, Osode san arranjou este encontro. Ela sorriu de novo. Eu sei, e percebo que, não sendo japonês, não tem os mesmos valores, os mesmos códigos, o mesmo raciocínio. Acendeu o cachimbo, lançou uma baforada de fumo e continuou.
– Fui educada não só por meus pais mas por homens que queriam converter-nos, estrangeiros como você. Hoje sei como pensam, suspirou discretamente olhando o fumo a desfazer-se.


– Entre nós há uma diferença radical, continuou suavemente implacável. Nós temos uma cultura baseada na vergonha, vocês têm uma cultura baseada na culpa. A vergonha a que me refiro não é a do corpo. Esse não nos envergonha, é parte de nós. Entende-me? Eu vim para este mundo nocturno mas não me culpabilizo. Aceito pacificamente o que está escrito. Aprendemos muito com os chineses. Depois transformámos, adaptámos os seus conhecimentos os seus clássicos confucionistas. Como eles também nos casámos com a Natureza, percebemos os seus múltiplos ensinamentos e apelos, quisemos ir ao extremo da percepção. Fez uma pausa, poisou o cachimbo no tabuleiro.
– Desde há muito que temos medo de ter vergonha. Por isso aprendemos desde cedo todos os preceitos do comportamento para todas as situações. Existe uma ordem que interpretamos como divina. Tal como os chineses, convivemos com mais do que uma religião. Não as incompatibilizamos porque a ordem do mundo é a consonância, o que significa que a harmonização implica necessariamente a conjugação de pelo menos duas fontes.


Olhou para a sua direita e bateu as palmas suavemente, numa certa cadência. Havia como que um código estabelecido. Uma jovem entrou e entregou-lhe um instrumento de cordas e uma peça achatada, grande, feita de marfim, segundo me pareceu. Sakura dayu começou a tocar. Arrancava notas aparentemente soltas do shamisen (instrumento de três cordas). Havia uma linha melódica permanentemente descontínua. A enorme palheta tangia as cordas e aquela música ia-me entrando lentamente, fazendo-me intuir os mais ínfimos sons da terra, da inaudível floração até às nossas próprias pulsões.

Estava embrenhado nos meus pensamentos quando o último som se finou. Lentamente, Sakura dayu pousou o shamisen e olhou para mim.
– Acho que entendi
, disse-lhe, até porque não suportava o silêncio daquele momento. Ela tinha dado o tom e a direcção à conversa. Eu iria continuá-la. Ouvi o que disse e estive a reflectir, mas nada é absoluto. No ocidente a razão preside…ela, insolitamente interrompeu-me. Transgredia todas as regras, entusiasmava-se, o que eu sabia ser contra toda a etiqueta.
– Perdoe-me tirar-lhe a palavra. Mas a razão é subjectiva. Nem Platão com o seu discurso da justiça é linear. É preciso que cada um saiba exactamente o que fazer em cada momento. O inesperado não é tolerável.
 Provocava-me certamente, provocava-me até fora dos limites do seu papel. Talvez quisesse que eu perdesse a compostura para depois apontar a minha fraqueza. Ou talvez, quem sabe, me quisesse estimular. Mas atravessara completamente a fronteira da sua compostura de Oiran.

- Ah, fez ela, levando a mão direita à boca.
– Gomen nasai
 disse humildemente, prostrando-se. Não tem importância, não se esqueça que eu não sou japonês, portanto não se obrigue a esta etiqueta. Ergueu-se lentamente, subitamente fragilizada. De cabeça baixa respondeu-me num murmúrio.
– Perdão, excedi-me inadmissivelmente. Não tenho desculpas.
 Ela poderia ter aludido a que se entusiasmara com a conversa, que lhe era mais grato conversar e sair daquela máscara e daquela pele imposta do que repetir o que fazia quase sempre. Em vez disso evitou qualquer justificação, assumiu a responsabilidade.

- Peço-lhe, continuemos. E jovialmente continuei perante o seu ar compungido que eu sabia genuíno. Quero confessar-lhe que não sou deste tempo. Não vim para este tempo de livre vontade. Vive-se aqui num regime feudal com o qual eu não posso, vindo do meu tempo, concordar. Mas não sei como sair disto.

Não havia nenhum preconceito, suspeição ou surpresa na maneira como me olhava.
– Sabe
, disse já recomposta e algo apaziguada, alguém me ensinou alguns rudimentos de interpretação de situações… chamemo-lhes que enigmáticas. A natureza oferece-nos compostos naturais que, usados de determinadas maneiras, nos fazem avançar ou retroceder no tempo. O nosso espírito viaja através de memórias esquecidas de outras vidas de que não nos lembramos conscientemente.

– Pode ser, repliquei. Mas que tenho eu a ver com tudo isto? Apenas entrei numa casa de antiguidades e uma senhora de idade deu-me um cachimbo e uma bolsa de tabaco embrulhado num lenço que Osode san diz pertencer-lhe.

Sakura dayu, ouvindo atentamente, voltou a pegar no cachimbo e a acendê-lo. Fazia-o graciosamente, como graciosas eram as suas pausas. Uma conversa – tal como um desenho existe nos riscos e nos espaços brancos por riscar – é feita de pausas e de palavras. Mas é preciso que os interlocutores entendam isso. E aqui o nosso entendimento era perfeito.

– A sua gravura desencadeou tudo isto, murmurou a Oiran, cujo conhecimento dos antecedentes já me não espantava. – Osode san foi a modelo preferido de Utamaro Sensei (Mestre). Por razões que ela nunca disse, depois de casarem, regressou a Kyoto, vinda de Edo e leva uma vida retirada, vivendo dos rendimentos que a sua família lhe deixou. A vela do candeeiro bruxuleou, dando pequenos estalidos. Senti um ar apreensivo em Sakura dayu. Com um ar de discernível ansiedade contida perguntou-me:
– a casa de antiguidades fica perto de um rio, junto a uma ponte?
 Confirmei-lhe que sim, e que a ponte ainda tem aplicações de bronze nas madeiras. – Essa mesma, disse. Senti-lhe novo sobressalto quando a vela do candeeiro novamente trepidou.

Sakura dayu prostrou-se numa longa vénia. Receio que o privilégio de termos conversado me esteja a ser retirado em breve. A vela deu outro estalo grande e apagou-se.

Fiquei mergulhado numa completa penumbra. Subitamente toda a cor tinha desaparecido. Não consegui vislumbrar quase nada.
– Sakura san
, chamei. Quase já de muito longe, ouvi qualquer coisa como – é preciso que queime a gravura.

Fiquei sentado em quase total escuridão, não fosse o pequeno candeeiro exterior. Queimar a gravura de um autor que eu esperara décadas para poder ter uma...Porquê?

Levantei-me e saí. O corredor estava escuro e silencioso. Desci cuidadosamente os degraus. A casa estava deserta. Quando saí para o exterior, o céu tinha o tom cinza azulado do anúncio do dia.

Tsunetsugu ao sentir-me, levantou-se rapidamente. O sono espelhava-se no seu rosto. Sem uma palavra, saímos.

Quando chegámos ao pé do palanquim, virei-me para ele e perguntei-lhe:
– Por acaso Osode san mora ao pé de um rio e de uma ponte que o atravessa?


– Sim. É para lá que vamos, ripostou Tsunetsugu.

A minha mente cansada, tal como o dia, começava a clarear.


5

TODOS OS TEMPOS

Os acontecimentos sucediam-se num encadeamento que tinha certamente um sentido, conduzindo a uma interpretação que eu ia apenas suspeitando. Sentia-me exausto no caminho de regresso. O tempo invertera-se, ainda me recordava. Era agora manhã quando deveria ser noite. Ou será que eu estava tão inexoravelmente preso a este tempo que me era já impossível regressar ao meu?

A liteira oscilando tornava-me ainda mais sonolento e a fome anunciava-se. O dia era já uma realidade e as ruas já se povoavam da mais variada gente.

Regressei à memória do encontro com Sakura dayu. Perguntava-me como seria o seu passado, a exposição aos gaijin (estrangeiros) que ela me revelara, a razão da sua quebra de protocolo. A máscara que ela envergava fazia-me querer saber como seria diurnamente, que nome verdadeiro seria o seu. E o conhecimento que ela indiciara ter do ocidente parecia indicar que tinha nascido ou vivido em Nagasaki, onde tinham ficado confinados os estrangeiros. Tudo isto ocorria décadas depois de Tokugawa Ieyasu ter implantado o seu Shogunato, mas o Japão que eu fora demandar lançara-se há muito, numa feroz expansão económica.

A chegada da liteira retirou-me dos meus pensamentos. Estava dentro do mesmo local de onde partira. Saí tirando imediatamente o capacete, entreguei a katana a Tsunetsugu, ansioso por me refrescar e comer. Movimentava-me agora com muito mais à-vontade, consciente porém de que mantinha uma postura condizente com as roupas que vestia.

Osode san aguardava-me, bem como duas serviçais. O olhar dela era expectante. Passei familiarmente por ela. Dormiu? Ela seguiu-me silenciosamente ao andar superior. As duas serviçais precediam-nos, atentas.

– Prefere tomar banho primeiro ou comer? Osode falou pela primeira vez, como se nada se tivesse passado. Entrei no quarto onde ela me acordara, hesitando na escolha, mas o estômago falou mais alto. Ela deu ordens às duas raparigas que se retiraram correndo suavemente a porta. Ajudou-me a desatar o nó do Haori, recebeu-o e, em passos pequenos pousou-o cuidadosamente em silêncio. Tirei a wakisashi, olhei para a arma por momentos, retirei uns centímetros de lâmina da saya e, deliberadamente, poisei o polegar direito na face da lâmina. Queria deixar uma marca minha. Osode recebeu a espada. O seu silêncio subsistia tanto como as suas atenções para comigo. Decididamente havia um tempo para tudo. Retirei do kimono o embrulho intacto. Entreguei-o novamente neste ritual de nos despojarmos das coisas quando chegamos a casa. Osode recebeu-o com as duas mãos, mas manteve-se imóvel, o embrulho junto ao peito, as mãos envolvendo-o e o olhar cobrindo-me de mudas perguntas suprimidas.

– Sumimasen, disseram do outro lado da porta. E um tabuleiro com comida foi trazido e cuidadosamente colocado no lugar que lhe estava destinado, por etiqueta, no aposento.

– Coma, disse a jovem docemente  deve estar com fome. E avançou para o tabuleiro ajoelhando-se à sua esquerda, destapando o arroz que fumegava. Sentei-me no lugar que sabia ser o correspondente ao de quem come.
– Osode san, porque não come?
 Perguntei, embaraçado por comer só e a ser observado. Ela encheu-me cuidadosamente a tigela com chá procurando ganhar tempo.
–É, 
hesitou, é meu dever cuidar do seu bem estar…

O apetite abandonou-me. Percebi a angústia controlada dela.
– Osode san
, comecei, procurando as palavras – Por favor coma ao menos um pouco.
– Não tenho fome
, interrompeu-me ela. Olhei-a lentamente. Tinha os olhos com lágrimas lutando para não resvalarem. Suspirei para dentro, impotente. No ar pairava uma espécie de fatalismo, uma inevitabilidade de algo que eu ainda não percebera. Olhei para a janela fechada, levantei-me de repente na sua direcção. Osode correu atrás de mim.
– Não, não abra, vai apanhar frio
. A voz dela era angustiada, implorante. Fui mais rápido e, correndo a janela, pus a cabeça e os ombros de fora, respirando o ar frio daquela manhã cinzenta. Olhei instintivamente para a minha esquerda, e lá em baixo, tristemente, corriam as águas do Kamogawa (rio Kamo) por entre uma neblina que dele saía. Senti as mãos de Osode nas minhas costas, tentando puxar-me para trás, lutando para fechar a janela. Cerrei os olhos e por mim perpassou uma enorme nostalgia que deu lugar a uma inexplicável tristeza. Osode chorava silenciosamente, as lágrimas transbordando, pequenos rios no seu rosto suave. Levantei-lhe o queixo para que me olhasse. As mãos torcendo-se uma na outra, não soluçava sequer. Apenas os sulcos húmidos na pele delicada, e os olhos erguendo-se com tristeza.
– Porquê?
 Inquiri com a suavidade que pude reunir. Osode olhou para além de mim, para um ponto que se situava no infinito do tempo. Senti as suas pequenas mãos procurando as minhas, agarrando-as ansiosamente. Tinha entretanto arrefecido. Olhei em volta. Uma neblina que eu já temia voltava a formar-se, rasteira, pelo chão. Osode soluçou, as mãos apertaram-me com toda a força, as unhas dela magoando-me a carne como se quisesse que eu percebesse a sua dor.

O quarto arrefecera e a manhã ia escurecendo rapidamente. A jovem abraçou-me, o rosto dela no meu peito, empurrando-o como se quisesse colar-se a mim. A neblina cercava-nos já pela cintura. Osode afastou-se rapidamente, correu para um canto da sala, mergulhou na bruma e retornou para junto de mim. Acalmara-se e, tirando as mãos de trás dela, olhou a gravura e entregando-ma, disse:
– foi o único homem além dele que me viu acordar
… Recebi a estampa que ela me estendia com as mãos ambas. Tudo se precipitava, e havia em mim um inesperado conformismo que me enchia a alma de amargura.

O embrulho com o cachimbo, murmurei pedindo, a bruma quase submergindo-a. Osode olhou-me, os seus olhos marejaram-se de lágrimas novamente.
– Por favor, deixe-os ficar. Por favor
. O pedido era pungente, suplicante. Pude entrever no seu olhar a tristeza do rio que corria lá fora.

A névoa tapava-a já totalmente, eu sentia-a apenas, as mãos agarrando-me os braços. Soluçava agora profundamente. Eu próprio começava a ver apenas uma nuvem branca, luminiscente.
– Claro, claro que sim
, sosseguei-a.
– Mas porquê?
 Tinha de fazer a pergunta. Senti as mãos dela soltarem-se, como que puxadas pela voragem de algo tão forte como o tempo. Por fim soltaram-se definitivamente. Ficou apenas na minha pele a sensação da presença delas. – Mas porquê? gritei. Um murmúrio já distante rompeu a bruma que tudo cobria.
– Para que lho possa oferecer novamente.

Nostálgicas notas de shamisen fizeram-se ouvir então, ecoando sons de vários tempos num mesmo. Percebi a intrínseca dissonância harmónica daquela música. Osode san ainda não está emoldurada. Não pode haver nada de estranho, nenhuma barreira. Aquela gravura é uma promessa de um eterno retorno.


Gravura e fotografia são pertença do autor

© António Conceição Júnior 2000




Wednesday, October 7, 2020

CÁN JUÉ

 

O negro recorda-me a folha branca, a parede caiada, o estuque do mural por encetar, a tela virgem. Porque será que o luto anoitece a ocidente e branqueia a oriente?

Tudo tem uma razão, mesmo que esta se não descortine, até que a caneta rasgue o branco e a palavra comece, dando sentido não só à ideia mas também ao uso do branco.

O mesmo se passa ao inverso, com a ardósia, pois que nada é singular se o seu todo não contiver o oposto.

E neste convívio de opostos, ocidente e oriente, existindo na geografia de um espaço onde a realidade dos desejos se ficciona na vontade dos mesmos, os sons ocupam a

vacatura dos silêncios quando a porta dos sentidos se abre e nos damos à música, que se enche de negro e silêncio, porque quando se ouve, é preciso que se faça escuro para que a alvura dos sons suba à ribalta.

Zhou Yun bateu-me à porta das palavras e entrou-me com o olhar brilhando:

– Por agora não vou estudar violino.

Sentou-se com à-vontade perante a minha já habitual estupefacção, cheirando as flores brancas de gengibre que coroavam um cubo de porcelana, jogo entre a geometria e o naturalismo. Fechou os olhos e, abrindo as mãos, revelou um pequeno embrulho quadrado que, ao inverso da velha sapeca, continha nele o céu na forma de um disco.

– Posso pôr? indagou ansiosa. Assenti, vendo como ela me escondia o conteúdo. Seria dela? Mas porque estaria vestida de quase negro, reparara eu então, olhando as costas da blusa de riscas pretas e brancas, entremeadas de florzinhas.

Sentou-se com um olhar de revés, maroto. Depois, as mãos juntas, os polegares nos lábios, o olhar fixo aí no nada da parede branca, onde os sons anunciam a erupção iminente.

Um breve silêncio e o tanger de umas cordas, graves e agudas, tocadas com tal mestria que os sons se acumulavam aos precedentes, como lágrimas de um secreto pranto que se detém numa pausa breve.

Ergueu-se então uma voz, daquelas que o são por vontade de deus e, em silêncio, ouvimos o esvoaçar de um timbre de raça, lançando às paredes volutas de sons, convocando histórias de fenícios e de árabes, almuadens chamando os fiéis à oração a Meca e a Alá, préstito de choros, de destroços, de conquistas e suplícios, e memórias de uma sé edificada por sobre uma mesquita, pedras fundindo-se nas ruas e vielas de uma moirama que, de cercada, se abriu para a mouraria, morada de palavras onde o destino se diz fado, entremeado com a côdea da pobreza disfarçada por fogareiros ardendo brasas de onde fumegam sardinhas.

A voz tornava-se irrecusavelmente sublime, descalça pela verdura, tremente de segura, estranha forma de canto que se não aprende, apenas se sente, e nesse sentir da

intraduzível saudade se clareia em trinados irrepetíveis, que esta é uma raça feita de raças, de poetas mortos de fome ou escrevendo ridículas cartas de amor.

Olhei finalmente Zhou Yun. As mãos permaneciam em prece, os olhos vertendo lágrimas, doces regatos escorrendo, fixos algures onde a voz toca para além do ouvido e faz o homem ser mais homem, porque o homem chora e ainda bem, que o pranto lava a alma, que apenas o corpo não chega.

A voz calou-se por fim, o silêncio imperando de novo, vazio e só. Zhou Yun fungava discretamente. As lágrimas limpava-as com as costas das mãos, olhava-me carregada de mágoa, os lábios tremendo, o ar sorvido em soluços discretos.

Dei-lhe o lenço branco que uso. Agradeceu e agarrou-se ao branco com as duas mãos.

Olhou o algodão tecido, abanou o lenço.

– A música é uma nação de todas as raças, murmurou olhando o lenço. Por isso a cultura é o exercício da paz, por isso a paz é branca como o nosso luto, porque é a morte da imperfeição.

Aguardei que ela recuperasse, pesei as palavras, a pergunta era aparentemente banal:

– Não sabia que gostava de fado. Ela olhou-me, voltou-lhe ao semblante uma expressão de tristeza infinita.

– Cán Jué, murmurou. Sentimentos. Vocês têm uma forma de cantar poesia. O fado, esta senhora... Acendi um cigarro em busca de palavras:

– É uma forma de catarse. Para muitos o fado é a aceitação do destino. Tem uma história que não é tão linear assim, quase se perde e se encontra na história do país. Cada povo tem uma forma de se confessar – disse, olhando as paredes alvas - o importante é que se

confesse.

Zhou Yun esboçou um sorriso:

– Nós confessamo-nos no retiro de uma montanha. Vocês cantam a tristeza.

Olhei-a de novo.

– É uma transfiguração, é uma herança, como a vossa ópera convoca fantasmas e histórias antigas. O silêncio percorreu o tempo de um sopro de fumo do cigarro.

– Mas eu gosto muito desta senhora...

– Amália, completei.

– Isso, Amá-la ! repetiu sorrindo.

Estranhamente, quando se foi embora, e guardei o lenço, senti algo dentro. Era um brinco em filigrana, da forma de uma lágrima.




© António Conceição Júnior
Conversas do Chá e do Café 2011

Monday, August 5, 2019

O PRINCÍPIO DA RELATIVIZAÇÃO


O futebol tem-se vindo a tornar num fenómeno que não apenas movimenta muitos milhões, como, igualmente, desperta paixões e verdadeiras obsessões que em nada o favorecem. Todos os que me conhecem sabem que sou sportinguista, alguns saberão que dei sete anos da minha vida para ajudar a reactivar e  relançar o Sporting Clube de Macau, para chegar à conclusão de que a mediocridade da organização e a minha consequente saturação deram por terminada a minha modesta “experiência” no futebol.
Ontem o meu clube da capital perdeu no derbi da Supertaça para o Benfica. Pude ver meio jogo com atenção. Porém aprendi com a saturação, que as obsessões são perigosas, sobretudo quando existe vida para além da bola.
Então deixei de sofrer com as derrotas, relativizando-as, embora jamais tenha querido fazer autos de fé a jogadores e treinadores. Ser-se do Sporting, do Benfica, do Porto ou do Belenenses é uma opção quase sempre herdada do berço. Não compreendo como, por causa do futebol, por causa de derrotas ou vitórias, se cheguem a extremos emocionais que racionalmente se tornam inexplicáveis, nem mesmo com “As Tribos do Futebol” do Desmond Morris.
Talvez seja porque transporto uma cultura híbrida – não sei, uma mistura de Oriente e Ocidente – e que coisas destas requeiram um distanciamento que nos protejam do sofrimento, algo que o budismo descreve como avidya, ignorância, ou ignorar a inteligência.
Faço uma citação do monge Chogyam Trungpa:
“ É o culminar do primeiro skandha, ou imperfeição, a criação da ignorância-forma.
De facto, este skandha da ignorância-forma, tem três diferentes aspectos ou estágios que podemos examinar através do uso de outra metáfora. Suponhamos que no início há uma planície aberta sem montanhas ou árvores, terra completamente aberta, um simples deserto sem qualquer característica particular. É assim que somos, o que somos. Somos muito simples e básicos. E, no entanto, há um Sol que brilha, uma Lua que brilha e há luzes e cores, a textura do deserto. Haverá também algum sentimento da energia que se manifesta entre o céu e a terra. E isto continua sem parar.
Quando se fala de «ignorância», não nos referimos à estupidez em si. Em certo sentido, a ignorância é muito inteligente, mas é uma inteligência completamente biunívoca. Isto é, reagimos puramente às nossas projecções em vez de simplesmente vermos o que é. Não há uma situação do «deixar ser», porque durante todo esse tempo ignoramos o que somos. Essa é a definição básica de ignorância.”
Somos assim presos ao objecto de desejo, do prazer ou sofrimento e, em vez de nos libertarmos, cada vez mais nos enredamos na teia semelhante ao vício do jogo que se apossa do viciado e lhe retira o discernimento.
Esse é o perigo das paixões descontroladas que tornam o homem em algo primário, troglodita mesmo.
A fotografia que encima este pequeno texto ilustra bem a realidade do desporto e aquilo em que a realidade se transforma pelas paixões descontroladas.
Ganhar ou perder faz parte das regras do jogo. Há que saber ganhar e saber perder com elegância e pelas razões apontadas que se opõem ao primarismo.
Busquemos antes de tudo a Paz e a Felicidade.

Sunday, July 14, 2019

O LADO DE LADO NENHUM



As cidades são lugares de fascínio, de lides com o tempo, organismos vivos, legados, lugares construídos pelos que nos precederam em diferentes passados, respeitados e homenageados pela nossa vivência, engenho e vontade de os continuar.
As cidades só o são quando a sua autenticidade é respeitada e orgulhosamente vivida, fruída.
De outro modo, não é cidade, mas um amontoado urbano onde o vegetar se substitui à fruição.
Este lugar, em que estou e sou, embala-me o sentimento, e me faz, também aqui, sentir-me vivo de aqui estar.
Aqui diz-se “bom dia, como está, com sua licença, por favor e obrigado”.
Num café gerido por uma velha viúva curvada, vestida de negro, e duas filhas, abeirou-se da minha mesa um rapaz, talvez de doze anos, o tronco desnudo, que, com o maior respeito, em sentido, a voz tímida mas digna, pediu:
“peço desculpa de interromper, mas será que o senhor me poderia dar um cigarro?” e nessas palavras, a um tempo sedutoras e respeitosas, se resume o precoce reconhecimento do Outro, mesmo que ao pedido tenha respondido "não fumo".
Aqui por perto há uma lojinha fabulosa, porque encarna tudo quanto se tornou anacrónico. Primeiro, porque existe há mais de sessenta anos. Depois, porque continua a ostentar cautelas, lotarias forrando as paredes, namorando as raspadinhas de hoje, e jornais e revistas, tudo exalando a tempo, às intermináveis gerações de alunos comprando cadernos e esferográficas, e ali, sempre ali, o senhor Pereira, lento porque esse é o seu compasso,  me diz “até que...”
Logo ao lado, antes das sete da manhã, à esquina, abre o café pastelaria, o dono a dar o exemplo, a menina do balcão segue-lhe os passos e o empregado de óculos grossos por baixo de uma calvície precoce termina a procissão. 
Entro de seguida, e um sorriso acolhe-me, e breve me chega à mesa, o tampo de mármore, o “abatanado” cheio e a tosta mista, e eu a adaptar-me lentamente aos ponteiros deste tempo.
Isto tudo é gente que trabalha, com um porte que transpira uma subtil dignidade, igual à das pedras de onde parecem provir.
Uma nostalgia indizível apodera-se de mim porque me recorda o tempo em que, de onde venho e aonde pertenço sobretudo, havia triciclos e riquexós, cigarras, e as árvores não eram serradas, abatidas. Eram pujantes acácias rubras ocultando cigarras cantando, alternando com o auto-china1 de um qualquer rádio, e todos nos dávamos, numa entrega independente da língua. Éramos todos dali, e os que arribavam breve submergiam no rio da história desse lugar.
Agora talvez poucos saibam o que é uma cidade, onde o saber deu lugar à ignorância, ao consumo e à carestia.
Por isso eu digo que sou daqui e dali, sou do meu lado, um lado sem lados, um como que buraco de mim, grave, fundo.
Não sou de nenhum lado, sou antes, de mim, o esqueleto, a estrutura, folha desfolhada onde se vislumbram memórias e resíduos.
Ser-se, existir, é uma estranha complexidade simples, uma cosmologia, uma prisão livre ou, quem sabe (e eu só tenho dúvidas por certezas) uma liberdade aprisionada, espécie de furacão agrilhoado. Chego-  me para um dos lados de nenhum e deixo que acreditem.
Mergulho na profundidade do silêncio para perceber qual dos lados das facetas é, ainda que saiba que nada saberei, porque o saber é uma transcendência que não se compadece com as ilusões do estar ou do ser, isto é, do tempo e do lugar. É aquilo que se nos sobrepõe, inominável. Assim é o lugar de onde sou, sem lados, um pé num continente e o outro pé noutro, tornam-me, quiçá, de lado nenhum.

1auto-china: designação tradicionalmente macaense da ópera chinesa 

Saturday, March 16, 2019

CRIATIVIDADE E LUGAR


Criar é um acto de descodificação e de antecipação de cenários e visões do desenvolvimento das heranças culturais inerentes àquele que cria. Não é a esse acto, de todo indiferente, o peso da cultura dentro da qual se opera o acto de criar, porque é nas tradições religiosas, éticas e morais, ou pela sua negação, que assenta este processo.

A Ocidente, está o acto criativo consagrado, desde o Princípio, no Verbo. Tão só!

Assim, Criação e acto criativo, como que se confundem, na tradição judaico-cristã. Este procurando emular aquela, proveniente de Jeová, de Javé, de Deus. É, mais que simbolicamente, a reconstituição de um acto divino humanizante, porquanto, ao Sétimo Dia, o Criador descansa. Assim está nas escrituras. O Deus de Abraão, de Jacob e de Moisés repousa do esforço de criar, depois de também ter criado Adão, segundo está escrito, à sua imagem e semelhança.

É este premeditado conluio no descanso, na humanização do sagrado judaico-cristão que, por sua vez, sacraliza no homem o esforço deste em emular a criação, pelas vias que sabe. É assim que nesta plataforma deificante tem lugar o acto de tornar presente o futuro, característica essencial da criatividade humana. O criador transforma-se no sacerdote que ao longo dos séculos tem vindo a repetir a consagração da referência máxima: "tomai e comei. Sempre que o fizerdes, fazei-o em memória de mim", sem que, todavia, lhe esteja inerente a mais bela conversa cristã entre o homem e o Criador: Pai nosso…

A Oriente, a relação com o sentido da divindade transmuta-se para um nível cósmico, remetendo o homem, enquanto entidade criadora, para uma dimensão entre o Todo e o Nada, onde a divindade está, no seu essencial, removida.

O acto de criar advém então, não na ascensão ao divino mas na perceptibilidade da essência, na nulificação do ego enquanto entidade ciente e física, convivendo com uma realidade feita de aparências, de ilusões que tendem a toldar, camada sobre camada, o âmago da consciência pura, despida de interferências conducentes ao conhecimento mais depurado de níveis de realidade diferentes.

Como já se inferiu, não é indiferente ao acto de criar a geografia. Preside esta ao próprio nascimento do criativo, determinando-lhe cenário, circunstância e herança cultural, definindo-lhe raízes de onde deverá fazer crescer outras, subordinando-o a um contexto de onde também deverá saír, para depois, regressar prodigamente.

Contudo, não deixo de me questionar sobre o destino, a opção das sociedades mestiças.

Toda esta reflexão é-me suscitada pela revolução inovadora da Sociedade da Informação, globalizante para uns, modernidade para outros, porventura mais receosos de se diluírem em palavras mais comuns.
Aos criativos não importará em demasia a semântica como fim, apenas como meio. Importa contudo notar que a mais presente das actualidades é produto do somatório de todos os passados da Humanidade. Será pois dos arquétipos e dos signos que o criativo recorre para estabelecer a sua linguagem específica. 

Porém, mais do que a virtualidade da Sociedade de Informação, mais do que as chamadas auto-estradas da informação, é a contemplação da linguagem matemática do ciberespaço que suscita a eclosão de uma perplexidade perante um novo Universo criado pelo homem.

Ao contrário de Deus ou da divindade, o homem criou a mais próxima e mais imaterial das realidades, ou, porque não, a mais distantemente próxima ilusão de realidade material.

Ao criativo, perante as tecnologias, depara-se-lhe um novo campo de intervenção, não apenas no âmbito da linguagem virtual, mas mesmo na recuperação e actualização de outras formas mais tradicionais de expressão. Ou dizendo de outra forma, além de novas ordens económica, jurídica, e mesmo da governação, a era do código binário da sociedade de informação anuncia alternativas de criação artística sobre suportes imateriais, mas nem por isso menos democratizados que a fotografia, a xilogravura, a litografia, a gravura sobre metal ou a serigrafia.

Contudo, e dentro do acesso a outras realidades que Macau proporciona, a Sociedade da Informação propõe um enorme desafio a cerca de um quinto da população. Com efeito sabe-se que a maioria da população chinesa não fala senão a sua língua, ainda que seja patente o surto de desenvolvimento que ocorre há quase duas décadas na Mãe-China.

Contudo numa ética que se deseja global, não podem ocorrer exclusões decorrentes de um massivo predomínio de uma língua de comunicação.

Porém, não podendo o desenvolvimento tecnológico ser sustido pela vida própria que adquiriu, a contemporaneidade da China ainda a mantém numa situação de exclusão linguística na sociedade de informação.

Ao surto desenvolvimentista que sopra na China há que adicionar o seu acesso de pleno direito a esta nova versão de sociedade das nações e de cidadanias virtuais. Algumas razões de peso levam à expressão deste desejo que é um enorme desafio há pluralização linguística da China.

Constituindo a exclusão uma forma de discriminação, não se afigura viável que a China e a sua cultura possam ou devam estar representadas por sinólogos de outros países. Isto é, na sociedade de informação, o acesso de pleno direito é uma condição de autenticidade de conteúdos e de legibilidade culltural.

Quiseram a História e a Economia, que o Ocidente tivesse uma prevalência de disseminação cultural sobre o resto do mundo. Mas ao falar-se da China, fala-se igualmente da Coreia e do Japão, portadores de uma escrita que nenhuma romanização trará solução.

Assim existe um dilema que à partida exclui do acesso, usufruto e troca de ideias, cerca de um quinto da população mundial, com as confirmadoras excepções às regras, nas élites linguísticas destes países.

Por maioria de conteúdos e de razão, falhado há muito o esperanto, o inglês é a inevitável língua de comunicação na sociedade de informação. E estou certo que milhões de pessoas têm para com a China e os chineses uma enorme expectativa relativamente ao seu desempenho e revelação cultural no espaço virtual. Haverá certamente uma enorme curiosidade sobre o modo como tanto de Oriente interpreta o mundo de hoje.

Põe-se assim ao multi-milenar Império do Meio a perspectiva e o desafio de novamente se reinventar numa perspectiva de desenvolvimento integrado, para que, com a proverbial sabedoria, possa teorizar sobre o espaço virtual e, sobre criação e criativos, emitir opiniões e publicar estudos que permitam ao resto da humanidade virtualizada, aceder a outras visões sobre o acto criativo.

ESCRITO NO SÉCULO XX

Sunday, March 3, 2019

THIS THING CALLED CARNIVAL


Present day Carnival is an inheritance of several celebrations realized in Antiquity by people like the Egyptians, Hebrews, Greeks and Romans. These pagan feasts (pagan is any person or thing that is not related to baptism from the standpoint of Judaism, Christianity and Islam, but which follows and adopts rituals of polytheistic religions) served to celebrate great harvests and especially to praise divinities.
It is likely that the most important ancestors of Carnival were the "saturnals" held in ancient Rome in exaltation to Saturn, the god of agriculture. At the time of this celebration, the schools closed, the slaves were released and the Romans danced in the streets.
There was even a sort of "great-grandfather" of the current floats. They carried naked men and women and they were called carrum navalis, something like "naval car", since they were shaped like ships. Some researchers see the origin of the word "carnival" there.

Most scholars, however, think the term comes from another Latin term: carnem levare, which means "to withdraw or be free from the flesh." This is because, as early as the Middle Ages, these old pagan festivities were incorporated by the Catholic Church, marking the last days of "freedom" before the restrictions imposed by Lent, which are the 40 days before Easter.
In this period of penance for Christians (during the 40 days before Easter), the consumption of meat was forbidden. The variation of the Carnival date in the calendar is due to the direct link with Easter - which, in the Southern Hemisphere, always happens on the first Sunday after the first full moon of Autumn.
Given the date of the Christian holiday, just go back 46 days in the calendar (40 Lent plus six Holy Week) to reach Ash Wednesday.
The Carnival celebration took on different forms in the Catholic countries that held the celebration. In Brazil, the influence of the "entrudo" was great, a general “folia” meaning old bustling Portuguese dance, accompanied by songs, tambourines and performed by men dressed as women, made in Portugal, where the jokes with water were common.
In its beginnings, in the 17th century, the Carnival in Portugal had no music or dance, played the “entrudo”(the three days that precede Lent). This is where the "water wars" custom came from.
But the “artillery” of those times was often heavier, with not only water buckets and cans, but also mud, oranges, eggs, and lemons, small balls of fine wax stuffed with water and other substances.
Madness
Another tradition of Carnival is the habit of men dressing in women's outfits. There are records of this in street revelry since the beginning of the 20th century.
These men dressed as women are called Matrafonas


"The explanation lies in the very party of psychology, an inversion space, which seeks to be exactly what one is not in the rest of the year," says the philologist Rachel Valencia, director of the Research Center of the House of Rui Barbosa Foundation, in Rio de Janeiro, Brazil.

The Zés Pereiras, drum troupes genuinely from Portugal

Open wings for a Brazilian beat
Carnival marching bands set the tone for the party between the 1930s and 1950s. But the rhythm emerged in the late 19th century. "O Abre Alas" is considered the first song written especially for a Carnival block.
The "music for dancing" was composed by the teacher Chiquinha Gonzaga, in 1899, for the carnival group Rosa de Ouro, from Andaraí, in Rio de Janeiro.
With the block on the street (from Rio)

World famous Brazilian Carnival with Samba dance

The carnival blocks appeared in the middle of the 19th century. The first one to be reported is credited to the Portuguese shoemaker José Nogueira de Azevedo Prates, Zé Pereira. In 1846, he left the streets of Rio playing a kick drum. The shuffle attracted the attention of other revellers, who were joining the solitary musician.

Brazilian dancer. Most dancers are far from being rich but save a year for their costumes.

Carnival is, therefore a very specific word for a very specific set of events that take place for three days non stop. It may be the release or sublimation of many frustrations, stress, through the use of energy and joy.

TRANSMUTAÇÃO

  Antes do despertar há o acordar, esse momento em que apenas a alma se anima (perdoe-se-me a redundância), como quem acende uma luz íntima....