Monday, March 30, 2026

TRANSMUTAÇÃO

 

Antes do despertar há o acordar, esse momento em que apenas a alma se anima (perdoe-se-me a redundância), como quem acende uma luz íntima. Só depois vem o mundo — esse palco lá fora, que, para Buda, Goswami e Robert Lanza, só respira enquanto eu respiro. Aceito este mistério, pois tudo o mais parece apenas ilusão, um véu de eufemismos.

Desperto. Levanto-me e dou forma ao corpo, enquanto a água das abluções renova os gestos antigos. A noite ainda se cola às janelas, confirmado pelo candeeiro que vigia a saída de casa, guardião persistente da noite.

O telemóvel revela-me o frio: sete graus. Visto um abrigo envelhecido e entrego-me à noite, esta noite, indiferente, existe apenas porque eu ainda existo. Dois candeeiros, cúmplices, sublinham a escuridão. Caminho rumo ao “café das meninas”—nome que dei desde a primeira visita, porque lá reinam mulheres que preferem ser “meninas” e não “donas”. Na breve travessia pela rua de Augusto Luso, a noite dá lugar à certeza de portas abertas desde as seis e meia. Cruzo a Rua da Boavista, onde um traço de luz beija o pavimento negro.

Entro. A luz da confeitaria — o verdadeiro nome de registo — envolve-me. Duas mulheres cruzam o limiar, vindas do lado oposto ao meu. Entrar na luz é observar vidas alheias: gente que, ao contrário de mim, enfrenta o início de semana como quem desafia o destino. O silêncio governa. Rostos fechados, marcados pela fadiga de múltiplas jornadas, rendem-se ao café e ao pão da madrugada, servido por uma das meninas.

Ainda não são sete horas e o marido da dona emerge dos bastidores, acompanhado de ajudantes. Tabuleiros carregados de pães alinhados, sustentam o negócio e a fome matinal em outros lugares.

Servem-me o habitual: abatanado e tosta mista. Observo um velho como eu, voz rouca e cabelo rente, a limpar os vidros da montra com mestria. Permaneço sob esta luz crua e branca. Uma mulher de óculos de lentes grossas, com um esgar constante, aproxima-se familiarmente da mesa em frente. Joana, traz-lhe café e torrada. Recordo-a de outras vezes, em grupos de conversa gestual. Hoje está sozinha; o hábito revela-se no serviço automático. Àquela hora, é gente de faina precoce. Ao balcão, um homem de meia-idade saboreia um croissant. Veste uma gabardina de bainha descosida, calças de ganga e sapatos gastos. Termina, bebe, paga e desaparece na madrugada.

Chegou a minha vez de partir, de levar pão fresco para casa. Peço quatro carcaças; a dona mira-me, surpresa. Hesito: corrijo para "molete". Nada. Oferece-me “pão-da-avó”. Que seja. Pago. Saio para testemunhar os últimos suspiros da noite. O silêncio resiste. Ao fundo, junto à escola, um semáforo trabalha sem descanso. O céu prenuncia luz. Chego a casa e, num último instante, inspiro profundamente este silêncio, guardando a paz antes que as gaivotas grasnem e os carros disputem as ruas aos fantasmas. Como tudo se transmuta neste meu mundo... 

No comments:

Post a Comment

TRANSMUTAÇÃO

  Antes do despertar há o acordar, esse momento em que apenas a alma se anima (perdoe-se-me a redundância), como quem acende uma luz íntima....